quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Mentiras e meia-verdades

A língua inglesa tem um conceito que o português não tem da meia-verdade. Esta palavra descreve algo que não é completamente verdadeiro nem completamente falso.

Ontem encontrei uma dessas, um desses factos incómodos que os portugueses costumam chamar de mentira.

Porém, este facto com duplo significado não foi nada que tenha muita importância.

Foi apenas uma prova de que alguém teve medo de ser julgado e mal-entendido...

...por mim.

Estou ainda a tentar perceber o que inspirou esta falta de confiança, sinto-me culpada de algo sem saber bem de quê.

Olhei para o espelho e a cara que vi assustou-me, tal como devo ter assustado a verdade ao longo deste tempo.

Olhei-me, como se fossem os olhos de outra pessoa e vi uma estrangeira com imenso receio de não ser aceite nesta realidade açoriana, uma estrangeira cansada de viver com incertezas, uma estrangeira cujo astral caiu tão baixo que se encontra agora sob a sua bota.

Ora bem, quem poderia gostar de tal pessoa? Vocês sabem, a rapariga com cara grande que sempre fica calada, que nem consegue sorrir, para quem a vida parece ser uma desgraça em vez de ser uma fonte constante de alegria.

Uma rapariga desanimada.

Que fardo isto!

Se nem eu consigo lidar com a minha vida, como é que uma outra pessoa poderia assumir este papel?

Impensável.

Eu já gastei demasiado tempo a lamentar o que não existe em vez de ser grata pelo que posso ter.

Hoje é o dia da acção de graças, um costume dos nossos primos americanos.

Este texto é um 'obrigado' à pessoa especial quem saberá entender tudo do que falo.

Este texto é um 'obrigado' às pessoas inspiradoras que tive a sorte de encontrar e de conhecer aqui nos Açores.

Este texto é um 'obrigado' a vocês por partilharem a vossa vida comigo.

Quero acreditar que valeu e ainda pode valer a pena.


Por isso vou agora à luta, com caneta na mão e sorriso nos lábios, convencida de que não se pode apagar a única verdade que já fez sentido - o amor.

O resto são apenas pormenores sem significado nenhum.
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sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Ouvi dizer

Manter as aparências parece ser um desporto regional. Muitos vivem a sua vida para verem e serem vistos (quem não quer acreditar só tem que ver a proliferação de websites sociais e de revistas com páginas e páginas de caras, muitas com ar aborrecido e sem sorriso nenhum, tipo "apanhados"), outros tentam misturar-se sem chamar muita atenção para si e alguns tentaram e falharam, como eu.

Se eu não consigo misturar-me por causa dum estrangeirismo que não se pode esconder nem com chapéu, nem com cabelo açorianisado (um erro que me custou muitos euros o ano passado), decidi rir-me disto, mesmo que às vezes magoa e faça doer.

O que é diferente pode assustar e por isso posso ser assustadora. Pronto, lamento, mas eu também poderia dizer a mesma coisa em relação a vocês! Por acaso, o meu choque cultural é uma fonte de entretenimento que me traz novas surpresas cada dia. Aprendi a domesticar o bicho, deixei o medo para trás e tornar-me exploradora.

Exploradora e matadora de fofocas. Eu gosto de factos, os inimigos das fofocas. Gosto dessas verdades às vezes duras que não são fáceis de ouvir, nem de dizer. Fofocas parecem ter a sua vida própria e crescem com uma velocidade inacreditável. Fico sempre surpreendida pela imaginação das pessoas e ocasionalmente pela sua crueldade também. As fofocas repetidas e embelezadas são os "amendoins" verbais que alimentam as conversas de café e me deixam sempre com azia.

Por exemplo, eu já sou alegadamente fria! Esta é uma fofoca tão repetida que já se tornou numa verdade para alguns (infelizmente para alguns que não deveriam acreditar em nada disto) - eles não percebem que se eu fico calada, apenas quer dizer que estou a procura das palavras certas, ou que não quero meter-me nas fofocas dos outros. Vejam lá como é que as coisas são!

E as aparências? Até chegar nos Açores, não foram muito importantes para mim. Isso já mudou: não quero assustar ninguém nem dar luz a mais fofocas. Por isto, não saio de casa sem "pinturas de guerra". A maquilhagem é a melhor amiga duma mulher, esconde quase tudo até a falta de autoconfiança que as fofocas amachucam.

Para chegar ao fim, se quiserem fazer de mim um amendoim verbal, devem, pelo menos, tirar a casca primeiro!
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domingo, 8 de Novembro de 2009

Afinal, quem sou eu?

Sou um ponto de interrogação, com uma cabeça redonda e umas costas tortas por causa de andar sempre a carregar inúmeras perguntas. São tão pesadas que o meu mundo já se inverteu, cabeça no chão, corpo acima. Um dia destes, as perguntas vão esmagar-me completamente e deixar uma vírgula. Nunca vou chegar ao ponto final, apenas vou escrever mais uma frase, mais uma peça, mais um capítulo...

Sou uma comunicadora. A vida tem que ser falada e escrita para fazer sentido. As palavras esmiúçam, dão-nos visibilidade e são testemunhas da nossa existência. As palavras são instrumentos universais, tijolos leves mas capazes de construir caminhos e pontes entre as pessoas, e paredes também. As palavras trazem o sossego que o silêncio recusa: mesmo um monólogo é um diálogo com a página branca e o leitor lá fora.

Sou uma jornalista, uma ferramenta de comunicação com uma alma cheia de curiosidade, a vontade de esclarecer tudo e de emprestar a minha voz aos que ficam à margem da nossa sociedade por qualquer razão que seja, essas pessoas invisíveis de quem ninguém fala ou quer falar porque são diferentes, são assustadoras, são indesejáveis - é mais fácil fingir que não existem, não é? Mas elas existem.

Sou uma estrangeira nesta terra. Às vezes sinto-me cega, outras vezes demasiado lúcida. Colecciono pontos de referência, oiço o que não é dito das palavras dos outros e tento perceber o que poderei dar-lhes porque já me davam tanto. A língua portuguesa já faz parte da minha vida e acrescentou mais uma dimensão à minha personalidade. É a chave de ouro da cultura deste povo, é um desafio diário para mim...



Mas não me vou embora, não estou de passagem.

Vivo aqui. O meu coração pertence aqui ao meio deste Atlântico.

Sou quase açoriana.
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quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

O mar

Quando, há alguns meses, estava longe, recebi estas linhas dum caro amigo:

"Bom dia deste Atlântico! Aqui está sol e o mar com aquele azul nosso e único". Foi um ataque de saudades que me chegou por e-mail. Fechei os olhos e lembrei-me do cheiro divinal que acolhe os passageiros em Ponta Delgada quando saem do avião. Há algo no ar açoriano que não se pode descrever, é um pedaço de felicidade que me faz sempre voltar.

O mar inspira a minha curiosidade, o mar dá-me uma sensação de liberdade que nunca tinha num continente, seja no que fica à direita ou no outro que fica à esquerda. Gosto de viver no meio do Atlântico entre esses dois mundos que, daqui, me parecem igualmente acessíveis.

Tornei-me marinheiro num barco de pedra chamado São Miguel. 
 
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domingo, 1 de Novembro de 2009

Segunda classe?

Açorianos: cidadãos de segunda classe para a imprensa continental?

Admito que se trata aqui apenas duma pequena coisa, mas é uma pequena grande coisa que me deixa muito zangada.

Para mim, o fim-de-semana são dois dias dedicados às revistas e aos jornais (dias para ler o que me apetece mais até do que aquilo preciso para meu trabalho e perder-me nas páginas até esquecer as horas). É a minha maneira de desligar o neurónio.

Há algum tempo reparei que as revistas e os jornais do Continente são, às vezes, mais caros aqui nos Açores. Temos que pagar mais pela mesma coisa, que nem sempre chega a tempo. E ainda há alguém a perguntar o porquê da internet já se ter tornado na primeira escolha de muitos para se informarem? Não é preciso esperar até que o avião chegue com os jornais, só basta ligar-se à rede para ler notícias actualizadas. Também não custa nada.

Ontem fiquei mais uma vez admirada com a falta de igualdade entre quem vive numa ilha e quem vive no Continente em relação à imprensa. Comprei o Visão (mesmo preço em Lisboa e em Ponta Delgada, não estou a reclamar) porque gostei da capa e principalmente porque queria começar a minha colecção de livros de jornalistas escritores. Parece que não vou fazer porque não posso: os livros não veem as ilhas (os DVDs também não!).

Acho isto uma vergonha porque os Açores fazem parte de Portugal, portanto deveríamos ter o mesmo acesso à informação e cultura que o Continente.

Sinto-me como uma criança em frente à montra de uma confeitaria. A loja está fechada mas continuo a salivar.
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domingo, 25 de Outubro de 2009

O blogue tinha que mudar

Um blogue em inglês para "consumo interno" nos Açores não fez muito sentido, principalmente porque não houve muitas reacções. Um blogue sem reacções é como os Açores sem nevoeiro: falta algo. Foi um esforço de comunicação um bocado cego da minha parte. 

Por isso, peço desculpa mas agradeço imenso a vossa paciência.

Aqui vou publicar textos em português. No outro lado, já coloquei os textos em inglês. 

O template mudou também mas ainda falta re-instalar os elementos da pagína.

Viva Europa!
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